Quando eu observo o transporte rodoviário brasileiro, vejo que 2025 deixou um retrato muito claro do peso do caminhoneiro autônomo na circulação de mercadorias. Segundo levantamento da CNTA, com base em 17,8 milhões de MDFes registrados por autônomos junto à ANTT, os TACs transportaram 204,6 milhões de toneladas de cargas pelo Brasil. Não é um número pequeno. É um retrato direto da estrada.
Em 2025, os caminhoneiros autônomos movimentaram 204,6 milhões de toneladas de cargas em todo o país.
Na leitura que faço aqui no Voz da BR, esse volume mostra duas coisas ao mesmo tempo: capilaridade operacional e forte presença do autônomo em rotas de alto giro. Agosto foi o mês com maior volume, com 20,3 milhões de toneladas. Logo depois vieram julho e setembro, ambos com 20,1 milhões. Nesses mesmos meses, a presença de autônomos ativos também foi alta, chegando a 170,7 mil em setembro.
A estrada falou alto em 2025.
O que os números mostram
Quando eu junto tonelagem, viagens e distância rodada, o cenário fica ainda mais concreto. Em 2025, os autônomos realizaram 13,9 milhões de viagens e percorreram entre 5,1 bilhões e 5,4 bilhões de quilômetros. É muita roda girando, muito diesel queimado e muita carga chegando.
Mas há um dado que me chama atenção. Considerando autônomos e celetistas, 43,2 milhões de viagens subsequentes foram feitas sem carga. Isso representa 10,9 bilhões de quilômetros rodados vazios, cerca de 35,5% de toda a distância percorrida. Para quem vive a operação, esse número pesa no bolso e também no planejamento.
Por isso, eu sempre digo que falar de frete não basta. Também é preciso falar de retorno, despacho e malha. Em temas ligados a operação e tecnologia, vejo muito valor em acompanhar conteúdos como os da área de gestão de frota, da editoria de tecnologia e também de rotas, porque esses pontos ajudam a ler melhor esse tipo de dado.
Tipos de cargas e a mudança no MDFe
A composição das cargas pede cuidado na leitura. Mais da metade do total transportado, 53,4%, não teve tipo identificado nos registros. Isso aconteceu porque a identificação da mercadoria só passou a aparecer com mais frequência a partir de outubro, após mudanças no preenchimento do MDFe.
O alto volume de cargas sem identificação não significa falta de transporte definido, mas sim uma limitação do registro ao longo do ano.
Nos dados identificados, a soja liderou com 15,4% das cargas. Os picos apareceram em setembro, com 12,7 mil toneladas, março, com 11,7 mil, e maio, com 11,5 mil. Depois vieram outros grupos com boa participação:
Milho: 9,16%
Cimentos hidráulicos: 8,35%
Fertilizantes: 3,73%
Farelo de soja: 2,74%
Esse recorte mostra uma mistura bem brasileira. O agro segue puxando volume, mas a construção e os insumos para produção também aparecem com força. Eu vejo isso como sinal de uma operação bastante espalhada entre safra, indústria e abastecimento regional.

Onde a carga embarcou e para onde foi
São Paulo liderou no embarque, com 36 milhões de toneladas. Desse total, 3,6 milhões saíram de Santos. No recebimento, o estado também ficou na frente, com 24,4 milhões de toneladas.
No embarque, a sequência foi esta:
Minas Gerais
Paraná
Rio Grande do Sul
Goiás
Mato Grosso
Já no recebimento, vieram depois:
Minas Gerais
Rio de Janeiro
Paraná
Goiás
Bahia
Eu gosto de olhar esse mapa porque ele mostra polos que embarcam produção e polos que recebem consumo, transformação e redistribuição. Isso explica, em parte, por que certas rotas ficam mais aquecidas em janelas curtas do ano.
Quem é o autônomo que está entrando na atividade
Em 2025, foram emitidos 51.024 RNTRCs para TACs. Foi o segundo maior número anual em 21 anos. A média de idade dos novos cadastrados ficou em 42 anos, abaixo da média geral, que é de 46 anos.
Na prática, o ingresso na profissão continua mais comum entre 35 e 50 anos, com concentração forte na faixa de 38 a 44 anos. Também houve entrada expressiva acima dos 50. Já os jovens com menos de 25 anos seguem em percentual baixo. Eu não vejo isso como surpresa. O custo do caminhão é alto, o crédito é difícil e as condições operacionais afastam parte de quem está começando a vida profissional.
Hoje, existem cerca de 620 mil autônomos registrados na ANTT. Entre eles:
85% têm um veículo
11,7% têm dois
3,3% possuem três
Entre os novos TACs de 2025, 94,8% têm apenas um caminhão. Isso mostra uma base muito concentrada no pequeno operador, algo que o Voz da BR acompanha de perto quando trata de custo, manutenção e rotina real de trabalho.
O perfil do TAC brasileiro ainda é, em sua maioria, de operação enxuta e com apenas um veículo.
Outro dado que me chamou atenção foi a participação feminina. As mulheres representaram 16,3% dos novos registros de TACs em 2025, o maior índice já computado e bem acima da média geral de 10,7%.
Frota, idade dos veículos e efeito ambiental
O Caminhão Trator liderou o tipo de veículo usado, com 44% dos MDFes. Depois vieram caminhões simples, com 25,7%, caminhonetes e furgões, com 18,6%, e caminhões leves, com 11,3%.
Entre os TACs, há 733.871 veículos de tração ativos e 187.098 implementos. A média de idade dos veículos usados pelos autônomos em 2025 foi de 19,8 anos. Mais da metade, 54,5%, tem acima de 16 anos. Só 2,7% têm menos de 3 anos.
Na minha leitura, esse dado ajuda a entender o tipo de frete aceito, o custo de manutenção e até a emissão ambiental. Cargas de grãos costumam usar veículos mais novos. Já o transporte de sal aparece com frequência em caminhões acima de 21 anos. Isso mostra que o perfil da carga também puxa o perfil da frota.
Quando se fala em CO₂, o cálculo passa pelo desempenho médio de cada tipo de veículo, pelo consumo de diesel e pelo fator de emissão em gramas de CO₂ por litro. Esse tipo de base pode ser confrontado com dados do Inventário Nacional de Emissões Atmosféricas por Veículos Automotores Rodoviários, que reúne informações sobre frota circulante, quilometragem, consumo de combustíveis e estimativas por categoria.

Para quem trabalha com gestão ou busca melhorar visibilidade operacional, eu vejo como complemento útil observar discussões práticas como o uso de sistema para gestão de frotas e também movimentos de renovação e adaptação de frota, como no caso da frota com caminhões adaptados para bebidas.
O que fica para os próximos meses
Eu termino esta leitura com uma impressão bem clara. O autônomo segue no centro do transporte rodoviário brasileiro, mas ainda carrega desafios antigos: frota envelhecida, retorno vazio, entrada baixa de jovens e custo alto para crescer. Ao mesmo tempo, os dados de 2025 ajudam a enxergar melhor onde estão os fluxos, quais cargas puxam o mercado e como o perfil da categoria está mudando.
A partir de agora, a CNTA passará a monitorar trimestralmente a atuação dos autônomos para gerar dados estatísticos, comparativos anuais e leituras de mercado. Isso tende a indicar desafios e oportunidades para os TACs e apoiar um transporte mais equilibrado e sustentável. Se você quer acompanhar esse tipo de assunto com linguagem direta e base técnica, eu recomendo conhecer melhor o Voz da BR.
Perguntas frequentes
O que é transporte autônomo?
Eu chamo de transporte autônomo, neste contexto, a atividade feita por transportadores autônomos de cargas, os TACs. São profissionais registrados que operam por conta própria, em geral com um ou poucos veículos, prestando serviço de transporte rodoviário para embarcadores, empresas ou intermediadores.
Quais tipos de cargas são transportadas?
Em 2025, os registros identificados mostraram destaque para soja, milho, cimentos hidráulicos, fertilizantes e farelo de soja. Também há grande volume de cargas sem identificação detalhada no MDFe ao longo de parte do ano, o que amplia a variedade real de mercadorias movimentadas pelos autônomos.
Como funciona um caminhão autônomo?
No uso comum do setor no Brasil, muita gente confunde transporte autônomo com caminhão sem motorista. Aqui, estou falando do caminhão operado por um transportador autônomo, ou seja, um profissional independente. O veículo roda normalmente com direção humana, seguindo regras de jornada, documentação, manutenção e contratação de frete.
Vale a pena investir em transporte autônomo?
Na minha visão, vale a pena quando há boa leitura de custo, perfil de carga, rota e manutenção. O mercado tem volume, como mostram as 204,6 milhões de toneladas transportadas em 2025, mas a margem pode sofrer com retorno vazio, idade da frota e preço de insumos. Investir sem conta bem feita aumenta o risco.
Quais são os desafios do transporte autônomo?
Os principais desafios que eu vejo são o alto custo do veículo, acesso difícil a crédito, frota envelhecida, muitos quilômetros rodados sem carga, renovação geracional baixa e pressão por operação mais limpa. Com monitoramento trimestral e mais dados setoriais, a tendência é enxergar melhor esses pontos e buscar saídas mais realistas.
